Descrição, Narração e Dissertação

 

Descrição

 É importante destacar que descrever é dar elementos e não os elementos. Isso porque uma descrição não supõe a indicação de todos os elementos constituintes do tema-núcleo, e sim uma seleção desses elementos, realizada segundo os objetivos da própria descrição. Esses objetivos podem ser extratextuais (caso de uma receita) ou intracontextuais (uma informação sobre um personagem que pode ser importante no desenrolar de uma trama).

Narração x Descrição

Tomada por oposição à narração, a descrição apresenta uma suspensão do curso do tempo. Se a narração destaca as relações lógicas entre as ações, a descrição sublinha as características, qualidades ou especificações dos objetos, seres ou processos.

Elementos da Descrição

Todo texto descritivo apresenta alguns elementos fundamentais: 1º) um observador; 2º) um tema-núcleo; 3º) um conjunto de dados pertinentes ao tema-núcleo selecionado.
Quanto ao observador podemos destacar três limitações básicas: limitação do seu conhecimento, limitação do seu posicionamento e sua limitação psicológica.
 

Exemplo de limitação do conhecimento do observador (observe a ausência de vírgulas para bem caracterizar o modo de falar da criança):
"A tinta de escrever é um líquido com que a gente suja os dedos quando vai fazer a lição. A gente podia fazer a lição com lápis mas com lápis era muito fácil e por isso a professora não deixa. Assim a gente tem que tomar muito cuidado porque com tinta o erro nunca mais sai. E uma coisa que eu não sei é como um vidrinho de tinta tão pequeno pode ter tanto erro de Português."


Millôr Fernandes, Compozissôis infatis

Quanto ao tema núcleo, há três tipos: descrição de seres humanos, descrição de paisagens e descrição de objetos.
A caracterização de um personagem pode ser física, psíquica ou físico-psíquica.
Descreve-se uma paisagem para dar precisão informativa ou para criar verossimilhança.

Já os dados descritivos - terceiro elemento de um texto descritivo - pode ser visual, auditivo, olfativo, táctil ou gustativo.

Técnicas Descritivas

Na descrição de um referente qualquer, o texto segue, prioritariamente, a direção da esquerda para a direita e do alto para baixo. Isso ocorre, segundo consta, porque seguimos, na orientação do mundo, o mesmo processo de leitura, ou seja, vemos o mundo como o lemos. Assim, ao descrevermos uma pessoa, começamos por sua cabeça e podemos chegar aos pés; numa paisagem, do plano mais alto para o mais baixo.


Exemplo 2:

- Vou mostrar o quarto, fica no sótão - disse ela em meio de um acesso de tosse. Fez um sinal para que a seguíssemos. (...) Acendeu a luz. O quarto não podia ser menor, com o teto  em declive tão acentuado que nesse trecho teríamos que entrar de gatinhas. Duas camas, dois armários, uma mesa e uma cadeira de palhinha pintada de dourado.

Lígia Fagundes Teles

Há nesse texto uma clara preparação para a descrição visual do quarto: inicialmente, o fato de um dos personagens prometer mostrá-lo e, em seguida, acender a luz para que isso seja possível no plano visual.

 

Narração

O que caracteriza um texto narrativo: sucessão cronológica de ações, diferenças de estados, causalidade,  personagens e integração de ações.
A seguir passaremos a analisar cada uma delas.

Sucessão cronológica de ações

Toda narrativa apresenta uma sucessão cronológica de ações e, portanto, passagem de tempo. Por isso, podemos afirmar que uma narrativa se apóia numa sucessão cronológica de ações.
Exemplo:

Um cão, que carregava um pedaço de carne na boca, enquanto atravessava um rio, viu seu reflexo na água, Julgou, de imediato, que um outro cão levava um outro pedaço de carne maior do que o seu. Por isso, largou o que possuía e tentou pegar o outro, acabando por ficar sem alimento.

Adaptação da fábula de Esopo

Fato narrativo inicial

Para estabelecer-se uma sucessão cronológica de ações, em primeiro lugar deve-se determinar qual é o fato narrativo inicial. No exemplo acima, a primeira ação narrativa não é, ao contrário do que pode parecer, a parte em que o cão segura um pedaço de carne. Isso porque o verbo ali está no imperfeito. As ações narrativas estão no perfeito do indicativo e algumas vezes presente do indicativo. Portanto, no exemplo, o fato narrativo inicial é: O cão viu seu reflexo na água.

É importante observar que há textos que parecem ser narrativos, mas não o são, como nos exemplos abaixo:
João levantou-se cedo e foi direto para a rodoviária, já que o ônibus reservado para o seu grupo de pesquisadores tinha a saída marcada para as oito horas. Encontrou-se com todos e percorreram a distância em pouco mais de duas horas.

Pela ausência de finalidade que justifique as ações narradas, não é um texto narrativa, apesar de apresentar narratividade.

Outro:
Ontem fui ao banco depositar certa quantia, visitei um amigo no hospital, assisti uma palestra da universidade e escrevi duas cartas para amigos distantes.

Nesse exemplo, nada demonstra que as ações aconteceram nessa ordem.

Diferenças de Estados

A mudança de estados, é marcada por uma visão positiva (euforia) ou por uma visão negativa (disforia), daí que se possa falar em progressão ou melhora (disforia -> euforia) ou em degradação (euforia -> disforia). No caso da fábula do cão ocorreu a passagem de um estado de euforia (posse da carne) para um de disforia (perda do alimento).

Causalidade

Toda narrativa apresenta uma causalidade narrativa da intriga: o fato de o cão ver um pedaço de carne na boca de outro cão imaginário é a causa de desejar ter o outro pedaço, que lhe parece ser maior que o seu.

Personagens

Toda narrativa deve apresentar personagens humanos ou humanizados.

Integração de ações

Cada ação deve participar de uma unidade maior, de tal modo, como diz Aristóteles, que "se uma é deslocada ou suprimida, o todo torna-se confuso". Uma ação cuja junção às demais ou supressão não apresenta conseqüências certamente não faz parte do todo.

Como começar e terminar uma narração

A história deve começar por um fato importante para o que vai ser narrado. É o princípio da pertinência normativa.
E termina quando os fatos narrados completam um ciclo, caracterizado pela resolução de um problema global da narrativa.

Os personagens na narrativa

A tradição escolar fala do narrador em primeira pessoa, a que corresponde o papel de personagem e a não-onisciência narrativa, e o narrador em terceira pessoa, a que corresponde o papel de observador e a onisciência narrativa.

 

 
Dissertação - texto argumentativo

Há dois modelos básicos de texto dissertativo: o argumentativo e o informativo.

Exemplo de texto dissertativo informativo

Cientistas americanos apresentaram ontem resultados preliminares de uma vacina contra o fumo. O medicamento impede que a nicotina - componente do tabaco que causa dependência - chegue ao cérebro. Em ratos vacinados, até 64% da nicotina injetada deixou de atingir o sistema nervoso central.

Texto Argumentativo

O texto argumentativo caracteriza-se pela presença de um argumentador, que diante de um tema polêmico, apresenta uma tese, apoiada em argumentos a fim de convencer um público-alvo.
Argumentar é o processo de chegar a conclusões; persuadir é o ato de convencer os demais a aceitarem essas conclusões.
Os argumentos podem apoiar-se em dois métodos; o indutivo, que parte do particular para o geral, e o método dedutivo, que parte do geral para o particular. O método indutivo vai do efeito à causa. Se vemos o chão molhado, deduzimos que choveu. O método dedutivo parte do abstrato para o concreto como no silogismo (constituído de premissa geral, premissa particular e conclusão):
Todo homem é mortal.
Sócrates é homem.
Logo, Sócrates é mortal

 

 Você é nosso visitante número: