Caridade em marcha

Fonte: Boletim Semanal nº 1951 (20/08/05) do SEI - SERVIÇO ESPÍRITA DE INFORMAÇÕES,
 editado pelo Lar Fabiano de Cristo

O início de agosto, o menino Baby Boy Samínou, de apenas 16 meses de idade, foi sepultado na localidade de Elkokiya, na paupérrima nação de Níger, na África. Ele é mais uma das vítimas da fome que está castigando 3,6 milhões de pessoas naquele país, o segundo mais pobre do mundo. Samínou era pouco maior que um recém- nascido, tinha um corpo extremamente esquelético e morreu instantes depois que sua mãe conseguiu, após uma caminhada de 24km, chegar a um hospital de campo administrado pela organização Médicos Sem Fronteira. O garoto teve o mesmo destino de cinco dos seus sete irmãos e irmãs, o que não é novidade nas estatísticas da miséria local, onde 262 de cada mil crianças nascidas não chegam aos cinco anos de idade. A situação no Níger é antiga e o momento de agora é apenas uma fase mais acentuada do problema, agravado pelas chuvas irregulares, que prejudicaram ainda mais a já precária agricultura, favorecendo a proliferação de doenças como a malária.

Tanto quanto o quadro de miséria em que está mergulhado o Níger, choca a falta de mobilização mundial para dar auxílio àquela população, cujo agravamento das dificuldades havia sido previsto no final do ano passado, quando o Programa de Alimentação Mundial das Nações Unidas e a Médicos Sem Fronteiras lançaram, junto com o governo do Níger, um apelo ao mundo, pedindo a doação de 71 mil toneladas de alimentos e mais US$ 3 milhões para os 400 mil agricultores e pastores em situação mais vulnerável. Apesar da campanha, em maio de 2005, menos de 7 mil toneladas de alimentos chegaram ao Níger e apenas uma doação de US$ 320 mil foi registrada, de Luxemburgo.
As informações são da reportagem “Fome castiga 3,6 milhões de pessoas no Níger”, de Michael Wines, publicada em 5 de agosto no jornal “The New York Times”.

A respeito do assunto, vale recordar a página “Caridade em marcha”, de Bezerra de Menezes, parte do livro “Seareiros de volta”, psicografado por Waldo Vieira:

“Não sigais descuidosamente.
Compassai movimentos ao ritmo da ternura, no trato de todos os prisioneiros da provação que nem mesmo se percebem no sofrimento maior.

Crianças que, durante o dia, engolem a poeira alegremente e, à noite, entrebatem os próprios dentes sob o vento gelado, a tremer sem sentir.
Escolares sem escola, alentando os vermes que lhes comem, vorazes, as entranhas anêmicas.
Mocinhas que fogem de pensar nos problemas que lhes retalham a vida, cantarolando a modinha antigramatical.
Rapazes analfabetos que conhecem a moradia pela forma dos edifícios e as cédulas pela cor.
Operários tuberculosos que vomitam sangue no intervalo dos seus próprios serviços.
Colonos que enganam o estômago famulento com porções de água salobra, em choças sem espaço, sem ar e sem luz.
Lidadores que aceitam as doenças mais graves por férias forçadas para quebrar a monotonia.
Irmãos nossos que a obsessão escraviza à garrafa.
Homens precocemente envelhecidos que conversam sobre os mesmos assuntos de há dez anos.

E aquele indigente que procuramos para dar um vintém e que já foi enterrado, há muito tempo, em lugar que ninguém sabe...

Enquanto respirarem semelhantes companheiros padecentes que esperam e se desesperam perto de nós, quais figuras humanas a se esfumarem na margem do caminho que perlustramos, é natural que a alegria perfeita fuja de nós.
Servi o próximo incansavelmente, agora, para que a bondade vos seja inata na próxima encarnação.

Não apelamos aqui somente para os Espíritos encarnados que enfrentam a prova da fortuna e que, em muitas ocasiões, já são ricos amoedados antes de renascer...
Dirigimo-nos especialmente aos irmãos da luta vulgar, aos companheiros anônimos, ainda mais afortunados que os milionários da Terra, pelo conhecimento espiritual que possuem, e cujas existências, vezes e vezes, se compõem de horas perdidas e esvoaçantes, na atmosfera das expectativas inúteis.

O espírita-cristão será sempre um homem de instrumentos diversos que busca desempenhar funções multiformes, segundo as injunções em que vive.
Será enfermeiro, consolando os doentes; condutor, dirigindo cegos; preceptor, instruindo crianças; costureiro, vestindo nus; cozinheiro, saciando os famintos; mentor, indicando rumo certo aos vizinhos desorientados; pai, junto aos filhos de ninguém, e irmão de quem passe ou lhe surja à frente.

Distribuamos, de alma a cantar, o pão, a veste e o livro; o sorriso, a palavra e a oração; o consolo, a esperança e a fé...
Caridade em marcha!
Se Jesus é o nosso Amigo Constante, é também o Mestre de Sempre, a recordarnos em cada trecho da vida: ‘Em verdade vos digo que, quanto fizerdes a um destes meus pequeninos irmãos, é a mim que o fazeis’.”

 


 

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