A eutanásia promove o suicídio
 

Regina


Quer nos agrade quer não, um dos nossos papéis mais importantes como adultos na sociedade é o de dar exemplo às pessoas mais jovens e menos experientes. Afinal, aquilo que ensinamos aos jovens determinará, em grande parte, a forma como irão conduzir o mundo que lhes foi dado por herança ... e que tipo de mundo os nossos netos vão herdar.

Aquilo que ensinamos aos jovens também determinará como irão tratar-nos quando formos idosos e estivermos enfermos.
O índice de suicídio entre os adolescentes nos EUA explodiu para mais de 2.500 mortes por ano. Lemos sobre pactos suicidas e assassinato/suicídio de adolescentes quase semanalmente. Os especialistas em demografia de suicídio (suicidologistas) já chamam esta situação "uma epidemia".

Que tipo de exemplo um adulto passa aos adolescentes quando ele próprio se mata porque tem medo da dor ou de perder a "dignidade"? Ou porque poderá vivenciar algum grau desconhecido de dor por muitos anos - dor que provavelmente poderia ser aliviada?

Se a nossa sociedade aceitar a eutanásia, como iremos dizer a um adolescente desesperado que ele não tem o direito de se matar se a capitã da equipa de que ele gosta o expulsa da equipa? E o que se pode dizer da jovem cujo animal de estimação morreu? Ou do rapaz que não consegue ingressar numa equipa de futebol? Ou daquele que tem de abandonar a universidade porque repetiu o ano tantas vezes?

Os adolescentes não reagem a um padrão duplo. Não aceitam o comando "Faça o que eu digo, mas não o que eu faço". Se a eutanásia se tornar legal e for aceite pela sociedade, poderemos esperar que a nossa "epidemia" de suicídio na adolescência se tornará uma "pandemia", com talvez 10.000 a 20.000 casos a mais por ano.
Como vamos reagir a 25.000 casos de suicídio na adolescência, anualmente, sem parecermos grosseiramente hipócritas?
Suicídio.

O estudo do suicídio através de uma perspectiva maior que a individual é um dos trabalhos que proporcionaram a afirmação da Sociologia como disciplina científica autônoma na virada do século. Realizado por Durkheim, ele se baseia em uma análise as taxas de suicídio em seis países europeus ao longo de trinta anos, demonstrando que elas variam de acordo com a situação enfrentada por cada um deles. Quando atravessam períodos de estabilidade, as taxas refletem o crescimento populacional. Mas quando as sociedades se encontram em períodos de crise ou de mudança, seja por fatores externos ou internos, o índice de suicídios cresce mais rapidamente. São os casos da França por volta dos agitados acontecimentos da Comuna de Paris (1848), da Alemanha durante sua unificação (1866) e da Inglaterra após o crescimento provocado por seus lucrativos tratados comerciais (1868). Durkheim procurava demonstrar que os suicídios não apresentam unicamente causas psicológicas ou patológicas, sendo também influenciados por aspectos sociais, e criava assim o campo de estudos para a ciência que se formava.

Para Durkheim, são quatro as situações em que o suicídio apresenta relações com a sociedade e tais situações estão dispostas em dois pares. O primeiro par se refere ao grau de assimilação pelo indivíduo dos valores da sua sociedade, ou seja, do seu grau de socialização. Em ambientes onde as pessoas colocam os próprios valores acima das convenções coletivas, há um grande individualismo. Isto pode gerar uma incapacidade em arranjar respaldo para as explicações e objetivos da sua própria conduta. Desconsolado com a fragilidade dos próprios valores, o indivíduo pratica o suicídio egoísta. É o mais comum dos suicídios. Por outro lado, há situações em que o indivíduo absorve de tal forma os valores da sociedade que não ele não se sente dono da própria vida, oferecendo-a como uma espécie de sacrifício ritual. Este é o suicídio altruísta e vem do respeito rígido às normas. Seus exemplos clássicos são o da esposa que se mata logo após a morte do marido, o dos velhos esquimós que abandonam a aldeia rumo ao gelo quando ultrapassam uma certa idade e o dos escravos que se fechavam nas pirâmides com as múmias de seus faraós. O segundo par se refere à intensidade da coerção social sobre os indivíduos. Em situações de coerção muito reduzida, o indivíduo fica desorientado e não percebe claramente os objetivos socialmente valorizados. Ocasionado pela ausência ou pela fraqueza das normas sociais, este suicídio é classificado como anômico (v. Anomia). Em oposição a este, há situações em que as normas são tantas e tão rígidas que o indivíduo sente-se impotente perante elas. Nessas condições aparecem suicídios fatalistas, que são último recurso de indivíduos em becos sem saída, os quais a própria sociedade engendrou. Os camicases japoneses são um exemplo disso: na ausência de armamentos pesados, os pilotos usam o próprio avião como arma.

A pesquisa de Durkheim, se teve méritos incontestáveis na sua época, apresenta para os padrões de hoje um universo de análise bastante limitado. Para ampliá-lo, seria necessário unir a Sociologia e a Psicologia, algo que Durkheim queria exatamente evitar. Só assim seria possível conhecer os motivos, estabelecer uma distribuição desses motivos e localizar os fenômenos sociais que influem na variação dessa distribuição no tempo e no espaço, tarefas que Durkheim realiza de maneira extremamente simplificada. Além disso, tal estudo implicaria em dificuldades crônicas para obtenção de informações, onde a definição da metodologia seria fundamental: como avaliar casos em que não são deixados nenhuma espécie de bilhete? Será válido entrevistar parentes? E suicidas em potencial? E as pessoas que tentaram se suicidar e não conseguiram?
 

Suicídio assistido
Direito à vida ou à morte?

Na sua origem etimológica, eutanásia quer dizer 'boa morte'. É praticada um pouco por todo o mundo, mas na ilegalidade. A Holanda prepara-se para ser o primeiro país a legalizar esta prática e há quem já planeie aproveitar o balanço

Clara Cardoso 9 Abr. 2001
O médico australiano Philip Nitschke tornou-se conhecido, quando, em 1996, o território da Austrália do Norte legalizou a prática da eutanásia. Na altura, Nitschke ajudou quatro doentes terminais a morrerem. Mas a assistência legal durou pouco tempo, já que esta lei foi revogada menos de um ano depois de ter entrado em vigor.
Atualmente, o médico dá workshops em que aconselha os doentes terminais sobre a melhor maneira de cometerem suicídio.

Mas Nitschke não quer ficar por aqui: sonha em contornar a lei com uma clínica flutuante, ancorada ao largo da costa australiana, onde os doentes terminais que queiram morrer com dignidade se podem dirigir.
Nitschke tenciona aproveitar a quase certa aprovação da legalização desta prática na Holanda e comprar um barco registado naquele país. Deste modo, pensa conseguir contornar a lei australiana, de forma a aplicar injecções letais às pessoas com doenças terminais que insistam em morrer dignamente.

Há quem lhe chame morte clinicamente assistida mas também há quem lhe chame homicídio. Há quem defenda o direito à morte com dignidade e há quem entenda que não cabe aos homens pôr termo à vida.
«Alguém tem de ser o primeiro. Não é nada para se ter orgulho nem para envergonhar... dentro de 25 anos, a maioria dos países terá uma lei da eutanásia», sublinha Jacob Kohnstamm, o presidente da Sociedade Holandesa de Eutanásia Voluntária.

O debate no Senado, Câmara Alta do Parlamento holandês, teve início ontem, segunda-feira, mas só hoje deverá ser conhecida uma decisão final.
Em Novembro do ano passado, a Câmara Baixa do Parlamento aprovou, com 104 votos favoráveis (e 40 contra), uma proposta que visa tornar legal a ajuda médica a doentes que queiram morrer. Dada a larga maioria que deu luz verde ao diploma, a votação desta noite não deverá trazer grandes surpresas, até porque precisa apenas de uma maioria simples de votos, dos 75 lugares do Senado, para se constituir como lei.

O diploma, que define regras bastante rígidas a aplicar aos médicos que praticarem eutanásia, conta com o apoio dos três principais partidos (VVD, Partido Trabalhista e D66) da Câmara Alta – que detém 38 lugares do Senado. Os Verdes também defendem a legalização da eutanásia e ocupam oito lugares.
«Moral e eticamente, é correcto mudar o código penal de modo a que alguém com uma doença terminal possa pedir ao seu médico para o ajudar a morrer sem medo que este acabe por ser preso», defende Jacob Kohnstamm.

A eutanásia em Portugal
O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) elaborou, em 1995, um parecer sobre os aspectos éticos dos cuidados de saúde com os doentes terminais. O texto sublinha que «a primeira regra é que, enquanto há uma esperança razoável de obter cura ou melhoria do estado mórbido, com qualidade de vida aceite pela pessoa doente, são as regras da medicina curativa, científicas e éticas que devem ser seguidas pelo médico».
Quando a esperança de cura ou melhoria é quase nula, o CNECV insiste que «são as regras da medicina de acompanhamento que devem prevalecer».
«O objectivo primordial desta forma de cuidado médico é o de conseguir para a pessoa doente, em fase de incurabilidade, o maior conforto e bem-estar, tanto físico como psíquico e afectivo», pode ler-se no parecer.
O parecer, a cargo de Daniel Serrão, do CNECV, conclui que «não há nenhum argumento ético, social, moral, jurídico ou da deontologia das profissões de saúde que justifique (...), pelo respeito devido à pessoa humana e à vida, os actos de eutanásia».
(VISAOONLINE)

 

 

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